Como a cultura e o estilo de vida influenciam nossas narrativas

Escrito por Anna Rossetto

30/11/2020

Olá, tudo bem por ai? Espero que sim!
Já parou para pensar como o estilo de vida e a cultura influenciam os tipos de narrativas que usamos? Eu ando pensando bastante nisso ultimamente, principalmente depois que passei a devorar livros e mais livros de storytelling, dos mais variados (A mágica do Storytelling, A ciência… O segredo… O mistério heheheh o que você quiser de variação de nome seguido da palavra storytelling, tem) e percebi o quanto essas narrativas apenas demonstram como tentamos controlar nosso mundo à partir de nossas experiências pessoais. 
Will Storr no seu livro “The Science of Storytelling: Why Stories Make Us Human, and How to Tell Them” (algo como “A Ciência do Storytelling, Porque Histórias nos Fazem Humanos e Como Contá-las” e você pode encontrar uma palestra dele no TED Talk aqui) ao falar sobre cultura e personagem menciona que, nós ocidentais, influenciados em grande parte pelo modo de pensar grego, tendemos a contar histórias de superação individual. A auto confiança individual era a chave para o sucesso e acabou se tornando a cultura ideal. De acordo com alguns psicólogos, o panorama da Grécia Antiga, rochoso, com colinas e costas sendo assim pobre para que grandes grupos de fazendeiros prosperassem, fez com que eles desenvolvessem habilidades mais individuais para conseguir prosperar. Aquela pessoa que curtisse peles, fizesse azeite de oliva ou pescasse por exemplo, precisava  desenvolver a auto confiança numa tentativa de controlar seu próprio mundo da melhor forma possível. 
Sim, porque é isso que estamos fazendo quando buscamos as histórias. Queremos informações que nos possibilitem controlar o nosso próprio mundo.
Então para os gregos, a busca pela glória pessoal, perfeição e fama acabou ficando bem evidente ao observarmos a maneira como eles enxergaram o mundo através de seus legados e narrativas. Eles criaram a competição do eu contra o eu, as Olimpíadas, praticaram a democracia por cinquenta anos e se tornaram tão auto focados que se sentiram compelidos a criar uma história de alerta para esse auto centramento – a história de Narciso. Esse conceito do indivíduo como o locus do seu próprio poder, livre para escolher o que quiser ao invés de ser escravo do desejo de tiranos, destinos ou deuses, foi revolucionário. Mudou a maneira como as pessoas pensavam sobre “causa e efeito”. 
E como toda boa história precisa trazer contrastes e polaridades em sua narrativa para ser memorável, assim também são os contrastes e polaridades que nos possibilitam ter consciência. Por isso, vamos para um outro extremo, vamos comparar essa impetuosa liberdade e auto amor que emergia no leste do planeta, o oriente. As paisagens férteis da China antiga eram perfeitas para os esforços de grandes grupos e seus encontros. Neste contexto, a melhor maneira de controlar o mundo era assegurando que, ao invés do individuo, o grupo fosse bem sucedido. E isso significava manter sua cabeça baixa e ser parte do time. Então, essa teoria coletiva de controle conduziu a uma ideia coletiva de “eu”. Pensa em Confúcio, que nos descrevia coisas como “um homem superior é aquele que não vangloria à si mesmo preferindo a ocultação de suas virtudes, esse homem cultiva uma amigável estabilidade e  possibilita que um estado de equilíbrio e harmonia exista com perfeição”. 
Para os gregos, o principal agente do controle do mundo era o individuo, para os chineses, era o grupo. Para os gregos a realidade era feita de partes individuais, para os chineses a realidade era um campo de forças interconectadas. E à partir dessas diferentes formas de ver a realidade temos diferentes formatos de histórias. Gregos geralmente tem três atos em suas histórias – começo, meio e fim e geralmente estão falando de heróis que passado por uma crise, precisam realizar um esforço para chegar em uma resolução. São heróis únicos batalhando com terríveis monstros e retornando para casa com seus tesouros. Essa era a propaganda para a nação dizendo que realmente um indivíduo poderia mudar tudo. 
Por um período de quase dois mil anos, dificilmente se acha alguma narrativa autobiográfica na China. As histórias que existem são despidas de opiniões pessoais, como se o “protagonista” estivesse se posicionando, não ao centro da narração, mas à marginal, como passantes que estão observando o que está acontecendo. Ao invés de seguir uma sequência de causa e efeito, as narrativas são feitas à partir de pontos de vistas diversos, como na história ‘Em um bosque de bambu'(tradução livre) de Ryu-no-suke Akutagawa’s em que os eventos ao redor do assassinato são recontados à partir da perspectiva de diversas testemunhas, que de certa forma são um pouco contraditórias entre si, deixando para o leitor decifrar o significado por si mesmo. Nessas histórias, nunca somos agraciados com uma resposta, não tem fechamento, nem necessariamente o famoso final feliz como o concebemos por aqui. Você é deixado com uma pergunta para decidir, então, por si mesmo. Esse é o prazer da história para eles. 
Nas histórias ocidentais o foco esta no individuo e ele tendia a ganhar seu status de herói de uma forma como se fosse o primeiro do grupo. Nas histórias orientais, luta-se contra o mal, a verdade prevalece e o amor conquista tudo em um sentido em que a pessoa que se sacrifica se torna um herói, toma conta da família, da comunidade, do país. No ocidente apreciamos os esforços individuais e a vitória enquanto que no oriente aprecia-se as narrativas que buscam a harmonia. 
Agora deixa eu te fazer uma pergunta. Qual é a melhor narrativa?
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Se você respondeu nenhuma ou ambas, muito bem, você não ficou presa à pegadinha da dualidade e nem da exclusão. Não há melhor ou pior, há diferentes necessidades aqui. E existe aqui na Contoterapia uma oficina que convida você para a criação de contos biográficos, o que acaba proporcionando uma auto consciência. 
E por fim te pergunto, quais são as histórias que controlam seu mundo?
Te convido a relembrar as histórias mais marcantes para você. Elas foram mais individuais ou mais coletivas? Tenho certeza que você vai se conhecer melhor ao pensar nas histórias que mais gosta. 
Um grande abraço,
Anna

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